O que a alimentação e as doenças autoimunes têm em comum?

As doenças autoimunes estão ligadas a alterações do sistema imunológico. De forma simplificada, o sistema imunológico de uma pessoa produz células de defesa contra antígenos externos (vírus, bactérias, vermes, etc…) – as doenças autoimunes surgem quando o corpo da pessoa se confunde e produz anticorpos – células de defesa – contra células saudáveis da própria pessoa.

O glúten e as proteínas presente no leite são os princípais triggers – fatores que desencadeiam doenças autoimunes. A ciência já sabe que a alimentação desempenha um papel crucial no desenvolvimento, agravamento e também no tratamento das doenças autoimunes. Não é atoa que a sabedoria ancestral da Medicina Tradicional Chinesa já descrevia a íntima relação entre a Energia nutritiva (energia que obtemos através da alimentação) com a Energia Wei (energia de defesa do corpo). Foi buscando por informações sobre alimentação e doenças autoimunes que encontrei um artigo cientifico de revisão bibliográfica sobre o assunto. Neste post apresento uma resenha do artigo em questão.

A medicina já sabe que uma alimentação adequada é essencial para melhorar os quadros patológicos de pessoas com intolerância alimentar ao glúten e a proteínas do leite. Uma boa alimentação vai fortalecer o organismo na prevenção contra infecções, e ao mesmo tempo vai diminuir o impacto dos efeitos colaterais causados pelo uso de corticosteroides nos tratamentos. Além da alimentação várias linhas de pesquisas indicam que a suplementação com vitamina D, a ingestão de probióticos e de flavonóides podem ser utilizadas no tratamento de várias doenças autoimunes.

Na natureza o glúten esta presente no trigo, no centeio, na cevada e na aveia, já na industria alimentícia ele pode ser incorporado nos mais diversos alimentos, de pães, biscoitos e bolos ao extrato de tomate e o yogurte. Estes dois últimos não precisam conter glúten em suas composições.

Atualmente a medicina reconhece três doenças diretamente ligadas ao glúten: doença celíaca; alergia ao trigo; e a sensibilidade ao glúten não celíaca. A Doença Celíaca é considerada a intolerância alimentar mais comum do mundo, nela a pessoa tem um quadro de inflamação dos intestinos, que leva a um aumento da permeabilidade intestinal, uma redução das vilosidades intestinais, e consequentemente, diminuição da superfície de absorção de nutrientes. Estas alterações dos intestinos não são exclusivas da Doença Celíaca, também são encontradas em outras doenças como enterite eosinofílica, na intolerância às proteínas do leite, na doença de Crohn, entre outras.

O papel do glúten na Doença Celíaca fica evidente quando pessoas doentes iniciam uma Dieta Sem Glúten e apresentam melhora serológica (exame de sangue) e histológica (exame dos tecidos). Já a Sensibilidade ao Glúten Não Celíaca, pode ter sintomas parecidos com a síndrome do intestino irritado, ou com a doença inflamatória intestinal – nestas doenças percebe-se a volta dos sintomas uma semana após a pessoa abandonar a dieta sem glúten.

Acontece que, além dos sintomas gastrointestinais, a medicina vem estudado e estabelecido conexões entre as intolerâncias alimentares e manifestações autoimunes graves. É o caso das patologias autoimunes neurológicas como a ataxia por glúten transtorno onde o indivíduo perde por completo o equilíbrio, ficando incapaz de ficar em pé. A neuropatia periférica – é uma condição em que os nervos periféricos de uma pessoa se danificam, causando fraqueza, entorpecimento e dor, geralmente nas mãos e nos pés, a neuromielite óptica é uma doença inflamatória, imunomediada e desmielinizante do sistema nervoso central; e a encefalopatia. Há também quadro psiquiátricos como psicose isolada, esquizofrenia, ansiedade, depressão e autismo, que respondem rapidamente à dieta restritiva de glúten.

A patológia dermatológica dermatite herpetiforme é considerada uma doença inflamatória autoimune decorrente da Doença Celíaca, e pode ser tratada através da dieta sem glúten. Outras doenças como a psoríase, a alopécia areata, o vitiligo, a dermatomiosite, a urticária, eritema nodoso, o líquen plano oral e a doença de Behçet também podem estar de alguma forma ligadas à doença celíaca e a carência de vitamina D, embora não haja um consenso médico sobre a eficácia de aderir a dieta sem glúten como tratamento nestes casos.

A doença celíaca pode estar associada a doenças do Fígado, sendo a hipertransaminémia ligeira isolada a forma mais comum de manifestação da doença celíaca no fígado, afetando 20% dos casos clínicos. Outras doenças como a hepatite autoimune, cirrose biliar primária e colangite esclerosante primária também são encontradas em pessoas diagnosticadas com a doença celíaca.

Distúrbios endócrinos autoimunes como a diabetes tipo 1, doença de Addison e a tireoidite autoimune são mais frequentes em pessoas com a doença celíaca. Sendo que a doença de Graves e Tireoidite Hashimoto são as patologias autoimunes mais comumente associadas a doença celíaca.

Doença reumática e do tecido conjuntivoSindrome de Sjögren é mais comum em pessoas com doença celíaca e com grande risco de evolução para linfoma e também podem estar presentes em pessoas com sensibilidade ao glúten não celíaca. Artrite juvenil idiopática, a síndrome antifosfolipídico e o lúpus eritematoso sistémico também são doenças autoimunes associadas à intolerância ao glúten.

Outras doenças que também podem estar associadas à doença celíaca são: cardiomiopatia dilatada, pericardite, sarcoidose, púrpura trombocitopénica idiopática, fenómenos tromboembólicos, pancreatite e colite microscópica.

Em se tratando de intolerância alimentar existem estudos sobre a diabetes tipo 1, a esclerose multipla e a artrite reumatóide estarem ligadas as proteínas do leite, não exclusivamente a lactose. Além disso já se sabe da relação entre a doença celíaca e a intolerância alimentar ao leite devido a atrofia das vilosidades intestinais e consequente redução da produção de lactase. É por isso que recomenda-se a restrição de produtos láteos nos primeiros meses da dieta sem glúten.

Atualmente o único tratamento para a doença celíaca é a dieta sem glúten. No entanto, a dieta restritiva de glúten é difícil de manter por muito tempo. Os produtos sem glúten são mais caros que os convencionais e não necessariamente são 100% livres de glúten visto que a CODEX Comissão alimentar estipula que a quantidade de glúten permitida em produtos industrializados sem glúten seja de até 2mg/100g ou 20mg/kg de alimento ou 20ppm. Apesar da CODEX considerar esta uma quantidade segura existem estudos que relatam pessoas que manifestam sintomas ao ingerir estas pequenas quantidades de glúten. Além disso contaminações por glúten durante o processo de fabricação dos alimentos também são um problema para pessoas com restrições alimentares.

Se a doença celíaca pode estar relacionada com todas as doenças citadas na revisão bibliográfica de Daniela Garcez, eu me pergunto: Por que temos tão pouca regulação na industria dos alimentos quando se trata de incorporar glúten a produtos que não precisam ter glúten em sua composição? Se nem todo alimento glúten free é realmente 100% livre do glúten será que a solução para quem tem intolerância alimentar seria comer mais comida que se compra no sacolão, na peixaria e no açogue e menos comida comprada nos supermercados que vendem alimentos industrializados “sem glúten” e “sem lactose”?

As doenças autoimunes são cada vez mais frequentes nos países ocidentais, e afetam em sua maioria mulheres. Estas doenças estão intimamente ligadas aos hábitos alimentares ocidentais que criam um quadro constante de inflamação intestinal, aumentando a permeabilidade dos intestinos enquanto diminuem a absorção de nutrientes. Junte a isso o uso de antibióticos sem a devida reposição da microbiota intestinal e a crescente carência de vitamina D por não tomarmos sol o suficiente e temos a receita para adoecer.

Quando eu fui diagnosticada com intolerância a lactose a 6 anos atrás, o médico não levantou a necessidade de investigar nenhum outro tipo de intolerância alimentar. Ele simplesmente me receitou consumir a enzima lactase antes das refeições com derivados de leite e viver a vida normalmente. Na época eu pedi a um outro médico para avaliarmos se eu teria intolerância ao glúten, ele não quis investigar, disse apenas que eu precisava reduzir tanto os derivados do leite, quanto do glúten, pois ambos causam inflamação nos intestinos.

Como eu era praticamente assintomática em relação a minha intolerância alimentar eu vivi uma vida normal sem restrições nestes 6 anos, até dezembro de 2020, quando me encontro com uma inflamação na esclera (a parte branca do olho feita de tecido conjuntivo) a inflamação chama-se Episclerite já dura 20 dias e o oftalmologista que me atendeu disse para que eu não me preocupasse com ela, disse que só seria o caso de investigar as causas reais da episclerite numa terceira reincidência. Ele anotou o nome da doença, pediu para que pesquisasse por ela e repetiu algumas vezes para que eu não me assustasse ao ver que a episclerite pode ser um indicativo de doenças autoimunes como a artrite reumatóide. Ele não me perguntou sobre alergias alimentares, ou casos de doenças autoimunes na família, me deu um colírio de amostra grátis e me desejou feliz natal.

Como é que eu poderia não me preocupar com uma doença que chama artrite reumatóide? Foi ai que lembrei do meu caso de intolerância alimentar…

Publicado por Keylla García

Terapeuta integrativa apaixonada por Acupuntura e Medicina Tradicional Chinesa. Estuda e desenvolve técnicas para o controle e alívio do estresse desde 2021. Escritora, bióloga, fotografa, videomaker, webdesigner... uma pessoa que segue, confiantemente, em direção aos seus sonhos.