Por quê está adaptação é necessária?

Quando utiliza-se a palavra “homem” para denominar genericamente “o ser humano”; “a humanidade” ou ainda “o indivíduo da espécie humana independentemente do seu sexo” — perpetua-se a ideia do sexo masculino como sexo dominante da espécie Homo sapiens. Este hábito de atribuir o significado de humanidade à palavra “homem” é particularmente comum em textos sagrados o que torna nítida a segregação1 das mulheres da possibilidade de identificar-se com sua imagem e semelhança divina.

O reconhecimento da divindade feminina permanece oculto na distinção de gênero a milênios. É uma lacuna cultural que separa as mulheres – e atualmente também separar as pessoas que não se identificam com o gênero “homem” – da possibilidade de identificação com sua própria natureza divina.

As pessoas têm o direito de ler textos sagrados em que se exclui completamente o uso da palavra “homem” para indicar seres humanos, a humanidade ou até mesmo fazer referência a espécie humana. A partir desta premissa, considera-se que “homem” indica o indivíduo pertencente à espécie humana que se identifica com o sexo masculino e “mulher” indica o indivíduo pertencente à espécie humana que se identifica com o sexo feminino. Sendo preferível utilizar termos neutros quando se refere à algo que diz respeito à qualquer exemplar da espécie humana, independente do gênero.

É sutil, mas profundamente marcante, a ausência de referências femininas supremas em registros antigos pertencentes a sociedades patriarcais. Mesmo em culturas politeístas, quando estudam-se mitos de Deusas e Deuses, há constantemente a presença da característica secundária do feminino.

Um indício da separação cultural da divindade feminina nas traduções existentes do Tao Te Ching torna-se explicito na citação abaixo:

“É o escuro misterioso, e o abissal, a sabedoria mais elevada e mutável, o inesgotável. Originalmente foi imaginado como feminino. Somente por volta do segundo milênio a.C. começou a ser designado como masculino. Encontra-se no norte ou no oeste, sempre na metade escura do ciclo solar.”

— Tao Te King | Texto e comentário de Richard Wilhelm, página 129.

Antes de conhecer esta referência, havia apenas, uma inquietação angustiante de notar a total ausência de textos sagrados que reverenciam a mulher como ser humano completo, divino e semelhante à consciência cósmica.

Atualmente, as crescentes questões de gênero, tornam esta adaptação ainda mais proveitosa. Ao utilizar termos neutros2 exclui-se o caráter de distinção de gênero durante a leitura. O que possibilita que mais pessoas possam experimentar uma identificação igualitária durante a leitura dos textos antigos.

A adaptação das oitenta e uma poesias escritas por Lao-Tzu em o Tao Te Ching proporciona a leitura de textos sagrados que evidenciam a divindade feminina ancestral uma vez que Tao – a força criadora de todo o universo é muitas vezes comparada com a mãe ancestral e nesta edição retorna a sua referência original no feminino através do uso do artigo “a” ao invés do artigo “o”.

Nesta versão, foram substituídas amplamente palavras no gênero masculino por seus sinônimos ou equivalentes no gênero feminino. Também é introduzido ao leitor o conceito de pessoa sábia — que diz respeito às pessoas que enxergam e acolhem sua própria divindade como algo intrínseco à sua existência independente da sua identificação de gênero. Pessoas que no decorrer de suas trajetórias compreendem que são responsáveis por sua própria sensação de plenitude, e com isso buscam não atribuir à outras pessoas ou à outras coisas a responsabilidade pela alegria de viver.

A vontade de reescrever textos sagrados majoritariamente no feminino surgiu no início de 2020 e o projeto foi iniciado durante a quarentena da Covid-19 no Brasil. Esta adaptação, do livro clássico Tao Te Ching, possibilita um reencontro com o Yin primordial, a Deusa Taoísta Tao que por milênios é identificada como uma divindade no gênero masculino. Acredita-se que esta versão livre da distinção de gênero pode reaproximar leitoras e leitores da divindade presente no feminino.

1 A segregação não é exclusiva das mulheres, pode ser vivenciada por todas as pessoas que não se identificam com o gênero homem.

2 Alguns exemplos de termos neutros: pessoa, indivíduo, humanidade, espécie humana, ser humano, exemplar da espécie humana.

Belo Horizonte, 02 de setembro de 2020

Keylla García

Publicado por Keylla García

Terapeuta integrativa apaixonada por Acupuntura e Medicina Tradicional Chinesa. Estuda e desenvolve técnicas para o controle e alívio do estresse desde 2021. Escritora, bióloga, fotografa, videomaker, webdesigner... uma pessoa que segue, confiantemente, em direção aos seus sonhos.